terça-feira, maio 21, 2013

PAIXÃO PELO CHOCOLATE [HISTÓRIA PARTE 1]


                (Imagem retirada na net)

       (Imagem retirada na net)
Tenho partilhado várias histórias, mas do chocolate ainda não o fiz. Ao consultar o meu livro «Paixão pelo Chocolate» apeteceu-me partilhar a delicia desta história, pois não acredito (pelo menos não conheço) que haja alguém que não goste de chocolate. Vamos a isto, que como sabem vai ser em várias partes pois é bastante extensa, ok? Mas a quem não interessar, colocam no canto, se gostarem e servir para saber mais algo, óptimo.

Este livro é dedicado a todas as pessoas por cujas mãos passa o fruto do cacaueiro e que o convertem no apreciado chocolate: aos que trabalham de sol a sol nos países tropicais; aos que laboram nas fábricas, dando forma a um alimento de origem ancestral; e, não podia deixar de ser, aos antigos Maias, por partilharem connosco este presente dos deuses.

Introdução:

O chocolate poderia bem chamar-se «este obscuro objecto do desejo», como o filme de Buñel, uma vez que são poucos os que conseguem resistir a levar à boca um pedaço, fechar os olhos, deixá-lo desfazer-se sobre a língua e gozar um momento de prazer.

O chocolate entra na nossa vida muito cedo: em crianças, devoramo-lo com avidez, sem conseguir evitar que as suas marcas na nossa boca, nos dedos, na roupa; quando adolescentes, acalma a nossa ansiedade, malgrado as consequências na acne: em adultos, se possuirmos uma imaginação transbordante, utilizamo-lo para enriquecer as fantasias sexuais ou, se gostarmos de confeccionar doces, empregamo-lo na criação de novas e requintadas receitas, não perdendo uma oportunidade de fazer gala do nosso talento.

No filme chocolate, mostra-se como os habitantes de uma pequena povoação francesa modificam a sua vida graças ao chocolate. Numa cena memorável, o presidente do município-farto de combate sem êxito uma loja de chocolates considerada pecaminosa por estar aberta ao público na Quaresma-destrói um escaparate. Num dos furiosos golpes desferidos nos artigos expostos, um pedaço de chocolate salta e vai parar aos seus lábios, desfazendo-se involuntariamente na sua língua. O homem começa a devorar, sem conseguir parar, o chocolate que se encontra ao seu alcance. A partir de então, a vida naquela terra nunca mais será a mesma: o mágico chocolate acaba com a intolerância que ali reinava.

Qual será o segredo deste delicioso manjar? O chocolate encontra-se envolvido em lendas antigas e é rico do ponto de vista nutricional, além de ser um dos alimentos mais atraentes do ponto de vista organoléptico.

Nas páginas que se seguem faremos uma viagem ao coração do chocolate para descobrir os seus segredos. Seguiremos a rota dos antigos maias e dos astecas até alcançarem as preparações culinárias contemporâneas. Entretanto porque não preparar um batido de chocolate para acompanhar a leitura?

Do Cacau ao Chocolate:

Sabemos que sem cacau não há chocolate, mas como se chega a este? Como se processa a espectacular transformação de sementes sem qualquer atractivo num requintado bocado de chocolate brilhante?
As origens do chocolate remontam a épocas anteriores às dos conquistadores do Novo Mundo.
Em 4000 a. C. já havia grandes plantações de cacau nos territórios que são actualmente o México e a Guatemala.  A sua história é tão rica e surpreendente como o produto final, o chocolate, por isso, convidamo-la a conhecê-la.

"Reza a lenda que o deus Quetzalcoatl, representado pelos mortais como «a serpente emplumada» desceu dos céus para transmitir sabedoria aos homens, e que lhes trouxe um presente: a planta do cacau. Os outros deuses não lhe perdoaram que desse a conhecer um alimento divino, e vingaram-se, mandando-o expulsar das suas terras pelo Deus Tezcatlipoca. Numa outra versão, Quetzalcoatl era um Deus bondoso que tinha de defrontar Tezcatlipoca, um Deus cruel: este venceu-o e condenou-o ao desterro. Antes de se ir embora, Quetzalcoatl jurou regressar «por onde o sol sai» no ano ce-acatl do calendário asteca.

O Cacau, um fruto prodigioso:

Os Maias foram os primeiros a cultivar o cacaueiro, há mais de dois mil anos, dando ao seu fruto um grande valor como alimento (pensa-se que partiam as sementes e as mascavam) e como moeda. Mais tarde, os astecas continuaram a tradição, e chamaram cacahuatl ao fruto («cacau», em nauatle, a língua deste povo). Também eles o reconheciam como um presente dos deuses e tiravam dele grande satisfação: preparavam uma bebida forte e espumosa destinada aos soldados e aos hierarcas, embora também a consumissem em determinados festejos e rituais.

Cristóvão Colombo foi o primeiro europeu a entrar em contacto com o cacau, quando desembarcou na América, nos finais do século XV. Como os astecas tinham o fruto em grande apreço consideraram que receber os ilustres visitantes com as suas sementes seria a melhor maneira de lhes provar que eram bem-vindos. Contudo, apesar das suas boas intenções, a expedição de Colombo não se mostrou muito interessada naquelas sementes de cor acastanhada, nas quais a única utilidade que viam era a de moeda de troca, aliás uma prática habitual na época: um escravo valia cem sementes, os favores sexuais das cortesãs, dez, e um coelho, oito.

Apesar de ter sido Cristóvão Colombo o primeiro europeu a conhecê-lo, o novo alimento só seria dado como oficialmente descoberto quando Hernán Cortés chegou ao México, em 1519. Os astecas acreditavam que Cortés era a encarnação de Quetzalcoatl, porque a chegada do conquistador coincidiu com o ce-acatl, o ano em que Deus havia prometido voltar. Para sorte do espanhol, os astecas acreditavam que o seu Deus entraria «por onde o sol sai», isto é, por leste, precisamente por onde desembarcou a expedição.

Montezuma recebeu-o com todas as honras devidas a uma divindade, e ofereceu-lhe xocolatl, a bebida reservada às pessoas importantes. Naquela época não tinha o sabor suave e delicado que conhecemos hoje, mas, sim, amargo e forte. Cortés, ao provar aquela estranha beberagem, descreveu-a assim: «Quando alguém a bebe pode empreender uma jornada sem se cansar e sem sentir necessidade de se alimentar.» Para além do seu elevado valor alimentar, também o valor monetário que lhe atribuíam os astecas chamou a atenção de Cortés. Numa carta dirigida a Carlos V datada de 30/10//1530, escreveu: «É um fruto que vendem moído, e têm-no em tão grande estima que o usam como moeda em todas as terras e com ele se compram todas as coisas necessárias.»

Ambas as qualidades foram determinantes para que Cortés incentivasse o cultivo da árvore do cacau e o expandisse para outros países; assim, chegou ao Brasil passando pela Venezuela e pelas Antilhas.

O cacaueiro começou, assim, a divulgar-se e a ganhar raízes por todo o continente americano, fornecendo o valioso xocolatl, um produto  com que os homens podiam manter-se, uma vez que lhes fornecia a energia necessária para andarem um dia inteiro sem precisarem de qualquer outro alimento.

A lenda começava a expandir-se.

Continua...

UMA BEBIDA LUXUOSA.
Os astecas torravam e moíam as sementes do cacau, misturavam-nas com água, juntavam-lhes especiarias, como malagueta, canela, pimenta ou baunilha (e, por vezes farinha de milho, a fim de a espessarem), e obtinham uma bebida amarga, de sabor forte, mas muito enérgica. Chamavam-lhe xocolatl (do nauatle xoco, «amargo», e atl, água). Era uma bebida de elite, reservada a governantes e soldados (aos quais conferia vigor), e utilizada para celebrar certos rituais.

CHOCOLATE...COM ÁGUA OU COM LEITE?
No México mantém-se a antiga tradição maia de beber o chocolate com água, em vez de leite, como nalguns países europeus. Uma passagem do romance Tão Veloz como o Desejo, de Laura Esquivel, ilustra muito bem a diferença: Itzel, uma mulher de ascendência maia, diz a Jesusa, a sua nora espanhola: «Para tua informação, os meus antepassados construíram pirâmides monumentais, observatórios, lugares sagrados, e sabiam, muito antes de vocês, de astronomia e de matemática; por isso não me venhas ensinar nada, muito menos como se bebe chocolate.»